terça-feira, 3 de agosto de 2010

A VOLTA...



Nasci em época de guerra, quase no final da mesma. Minha mãezinha escreveu em meu álbum do bebê, uma frase que durante muito tempo deixou-me preocupada. Disse ela: "Filha tivestes duas desgraças em tua chegada a este mundo: primeiro nasceste em plena guerra e segundo, nasceste mulher..."  Agora eu entendo o que ela quiz dizer, pois meu irmão havia nascido dois anos antes e recebera visitas e presentes que foram anotados em seu álbum infantil, enquanto eu, "tadinha", não recebi nem visitas e nem presentes. Talvez por isto eu seja tão desapegada às coisas.
Mas voltemos ao que interessa, nasci em um lindíssimo apartamento feito por meu avô e dado de "boca" para a minha mãe. Era enorme, 190m2, um grande quintal, onde passei os melhores anos da minha infância. Quando eu estava com oito anos,faleceu meu avô paterno, aliás um grande homem público, Moraes Júnior, ele quem construiu o prédio onde hoje é a faculdade que leva seu nome. Pois é, com o falecimento dele, minha avó, resolveu comprar dois "apertametinhos" , ali mesmo na Tijuca, onde fomos morar. Tivemos que vender os lindos móveis de Mogno e cheios de rococós, o piano de cauda, comprando tudo pequeno e sob medida.  Vi minha mãe chorar muito, tanto a morte do pai, quanto a perda do lindo apartamento. Pensei então:- Um dia ainda vou voltar a morar lá.
Os anos passaram, casei, tive filhos, o marido progrediu na vida, moramos em são Paulo, Porto Alegre e um dia voltamos para o Rio. Pedi à minha avó que me vendesse aquele apartamento. Ela se negou, mas disse que me alugaria e me daria em testamento, visto que era da minha mãe.  Foi uma grande alegria, pois senti que havia cumprido minha promessa de voltar. Quando entrei no apartamento vazio, sujo e precisando de obras, sentei-me no chão empoeirado e escrevi o poema abaixo:


A VOLTA

Entrei,
A casa estava vazia,
Silenciosa e escura.
Onde outrora havia
O vozerio alegre de crianças
A correr e a brincar
Hoje encontro somente
O silêncio a me esperar.
Onde está a mãezinha alegre
Que nos chamava com estridente
Assobio que só ela conseguia assobiar?
Onde está o paizinho musculoso
De cabelos ondeados,
Tão grande, mas tão carinhoso?
Onde está o vovô jovial
De cabelos prateados?
Onde estão todos?
Andei pela sala grande,
Os quartos vazios, a enorme cozinha...
Chamei, chamei:
-Paizinho... Mãezinha...
Olhem, aqui estou, voltei...
Vejam, sou eu!
Mas ninguém respondeu...
Voltei em busca de um passado
Que foi feliz,
Mas já morreu...
Hoje existe a realidade:
A menina que fui, cresceu.
Volto à casa que me viu nascer.
Sou eu agora a mãezinha,
Os tres filhos são meus...
Eles tornarão a encher a casa
De alegria, gritos e folguedos.
Abro a grande janela,
Entra a claridade.
Percebo então que o passado,
Viverá apenas na minha saudade!

Um comentário:

  1. Voooooooooooooooooooozinha!!!!!!
    Eu adoro esse poema!! Sempre choro quando leio!!
    hihihihi...
    Voce tem que publicar seus poemas!
    bjkaka

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